Mais de 60 obras lançadas na 7ª Bienal de Alagoas

Livro Paixão Incalculável foi uma das 13 obras lançadas ontem, no Café cantinho de Ideias

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Sessão de autógrafos no Café Cantinho das Ideais

Muita emoção na última noite da 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, durante a última sessão de autógrafos, no Café Cantinho das Ideias, local onde foram lançadas mais de 60 obras publicadas pela Editora da Ufal (Edufal). Um total de 13 obras, com temáticas variadas, foi apresentado à comunidade acadêmica, familiares e amigos dos autores, e visitantes da Bienal. O reitor da Ufal, Eurico Lôbo, saudou os autores na pessoa do engenheiro aposentado Vinícius Maia Nobre que, aos 80 anos, lançou seu segundo livro Paixão Incalculável – Memórias de um engenheiro.

“Esta obra é bastante significativa para Alagoas, não só porque trata da vida e obra de um dos mais respeitados engenheiros do estado, mas também por resgatar a historia da engenharia alagoana e de todos os engenheiros que contribuíram para a edificação de Alagoas”, destacou Lobo.

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Vários autores lançaram livro na última noite da Bienal

Prefaciado pelo também engenheiro Fernando Gama, ex-reitor da Ufal, o livro elenca importantes obras de saneamento realizadas por Maia Nobre, a exemplo da instalação do emissário submarino, com mais de três quilômetros de tubulação e 1,4 metro de diâmetro encravados no mar, e ainda do Trapichão (Rei Pelé) e da Ladeira da Rodoviária (atual Geraldo Melo).

“As obras do estádio Trapichão me renderam muita visibilidade porque fizeram a alegria do povo, que aprecia o futebol, mas, particularmente, dou mais valor às obras que realizei e ninguém viu. Aquelas que garantiram o saneamento básico, por exemplo, sobretudo, em Maceió”, afirmou Maia Nobre. No livro, o leitor vai encontrar registros desse trabalho, desde o governo Silvestre Péricles, até 2014.

Outros lançamentos

Também foi lançada ontem a nona edição da revista Antígona, publicação do Toro de Psicanálise, que reúne artigos de psicanalistas e interessados em Psicanálise no estado de Alagoas; e os livros Metodologias – Pesquisas em saúde, clínica e práticas psicológica, de Charles Elias Lang, Jefferson de Souza Bernardes(organizador), Maria Auxiliadora Ribeiro e Susane Vasconcelos Zanotti; e Lacan Chinês – Poesia Ideograma e Caligrafia Chinesa de uma Psicanálise, de Cleyton Andrade.

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Público prestigiou os autores no estande da Edufal

E ainda: Estudos Métricos da Informação na Web – atores ações e dispositivos informacionais, de Ronaldo Ferreira; Reflexões e práticas de pesquisa em Ciência da Informação, de Jorge Raimundo da Silva,Claudiane de Araújo e Thaís Helena do Nascimento (organizadora); e Balé de Flávio na Academia – Diálogos com o Projeto Político Pedagógico do Curso de Licenciatura de Dança da Ufal, de Isabelle Pita Ramos Rocha;

Epistemologia Interdisciplinar – Uma introdução à Produção Colaborativa do Conhecimento Científico e também Ciência da Informação – Fundamentos Epistêmico – Discurso no campo científico e do objeto de estudo, de Edivânio Duarte de Sousa de Carlos Matias, Polícia e Estigma – a construção do sujeito desviante; O Estado Democrático de Direito Habersasiano, de Francisco de Sousa; Manual sobre Arquitetura Penal – Segurança e Humanização, de Suzann Cordeiro, Aliísio Batista Cavalcante, Camila Costa, Dayane Correia e Jessica Madeiro; entre outros.

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A professora Stela Lameira, diretora da Edufal, fez questão de enfatizar a qualidade das obras publicadas com o selo Edufal. Todas as 13 obras lançadas ontem, bem como as outras 47 apresentadas ao público da Bienal alagoana, podem ser adquiridas na livraria da Edufal, que funciona, no horário comercial, no campus da Ufal. “Fizemos um esforço para garantir que todos os lançamentos previstos acontecessem. Valeu a transpiração”, comemora a Stela.

Graça Carvalho – jornalista
Aline Lima – fotógrafa

7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas supera expectativa de público

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Mais de  300 mil visitantes e 900 escolas marcaram presença no evento

A 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, encerrada ontem no Centro de Convenções de Maceió, superou as expectativas de público, atingindo mais de 300 mil visitantes.  Também foi expressivo o número de visitas de estudantes e professores, no decorrer dos dez dias de evento, um total de 900 escolas, em sua maioria da rede pública de ensino.

De acordo com a professora Stela Lameiras, diretora da Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal) e responsável pela estruturação do evento, a nova gestão da instituição, que assumirá nos p´roximos dias, já acenou com continuidade da Bienal alagoana, em 2017. Para ela, essa disposição da Ufal de levar à frente o projeto Bienal é um grande incentivo à produção literária local e aos patrocinadores e apoiadores do evento, já consolidado no calendário cultural alagoano.

“Ao final de duas bienais consecutivas e de quase quatro anos à frente da Edufal, só tenho a agradecer o apoio  e a confiança depositada em meu trabalho. Foi uma honra fazer parte da historia de uma editora que, em seus 32 anos de existência, vem avançando no sentido de aproximar a comunidade acadêmica da sociedade”, afirmou Stela, durante a última sessão de autógrafos de uma agenda de 60 lançamentos cumprida pela Edufal durante o evento.

Prestes a repassar o cargo a nova reitora da Ufal, professora Valéria Correia, o reitor Eurico Lôbo comemorou o sucesso de mais uma bienal e também falou sobre a importância do evento para Alagoas. “A Bienal não é mais da universidade. É um patrimônio da sociedade alagoana, que congrega milhares de pessoas, de Alagoas e vários estados brasileiros, gerando empregos diretos e indiretos, além de contribuir para o fortalecimento do mercado editorial, com a formação de novos leitores e incentivo a veteranos e novos escritores”, avaliou Lôbo.

Stela Lameiras e Eurico Lôbo
Stela Lameiras e Eurico Lôbo

Além da Edufal, para realizar esta edição da Bienal , a Ufal contou com uma série de parceiros, a exemplo da  Fundação Universitária de Desenvolvimento e Extensão e Pesquisa (Fundepes), Prefeitura Municipal de Maceió, Governo do Estado de Alagoas,  Imprensa Oficial, Gráfica Moura Ramos, Braskem, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), Sesc, Senac, Sebrae Alagoas, Unopar e Ceap.

O evento contou ainda  com o apoio da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU), Associação Nacional de Livrarias (ANL), Organização Arnon de Mello, Ifal, Pajuçara Sistema de Comunicação, Instituto Zumbi dos Palmares, Detran-AL, Hotel Ponta Verde e Maceió Shopping.

Graça Carvalho – jornalista

Aline Lima – fotógrafa

Mitchel Leonardo – fotógrafo

Uma escritora que fala a linguagem dos adolescentes

Simpática e muito receptiva, Thalita Rebouças empolgou o público do Teatro Gustavo Leite

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Thalita conversou com os fãs que lotaram o Gustavo Leite

Thalita Rebouças deu um show de simpatia neste último dia de Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Recebeu fãs, deu autógrafos, fez selfies, postou no snapchat… incansável. Ela sabe bem como são as adolescentes. Todas ansiosas, nervosas, tropeçando nas palavras e nas emoções. “Nunca considerei essas meninas como ‘aborrencentes’. Elas estão numa fase difícil e precisam de uma amiga de confiança”, disse a escritora.

E Thalita é essa confidente pronta para ouvir, aprender e aconselhar. Durante o bate-papo com ela, o teatro Gustavo Leite parecia uma gigantesca festa do pijama. As adolescentes, (e digo no feminino porque os adolescentes estavam lá, mas se manifestaram muito pouco), ficaram bem à vontade para fazer perguntas e até contar alguns fatos da vida delas. “Minha irmã vivia de mau humor, mas começou a sorrir depois de ler um trecho do seu livro onde diz que as princesas sempre sorriem”, disse uma das fãs.

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Bate-papo no teatro Gustavo Leite pareceu uma gigantesca festa do pijama

A maioria das perguntas começava com declarações de amor às quais Thalita também respondia com corações e sorrisos. Não teve constrangimento nem quando uma das adolescentes disse que o pai estava lá com ela, mas a mãe preferiu não vir. “Minha mãe te odeia, Thalita! Ela diz que é um absurdo você ter 41 anos com esse corpo”, disse a fã da escritora, provocando risos na platéia.

Leitoras apaixonadas

O mais importante, e isso Thalita gosta muito de ouvir, é saber que os livros dela conquistaram e formaram jovens leitores. Vários depoimentos repetiram a mesma situação. “Eu não gostava de ler, mas quando li um livro seu, não parei mais até ler todos os outros”, disseram vários fãs. A maioria se referiu aos livros da série Fala Sério. São cinco livros: Fala Sério, Mae; Fala Sério, Amiga; Fala Sério, Amor; Fala Sério Pai; Fala Sério, Professor.

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Thalita recebeu de suas fãs uma cesta de produtos nordestinos; a manteiga é sua grande paixão

As crônicas de Thalita Rebouças falam de diálogos do cotidiano entre as adolescentes e as principais pessoas com as quais elas convivem, com toda a carga de drama, conflitos, sentimentos exagerados. Aquela sensação de que o mundo pode acabar porque você não vai a uma festa da hora, o menino mais descolado da escola não te notou, ou você acabou ficando em recuperação. Adolescentes sabem bem o sofrimento dessas situações e a Thalita entende bem isso.

Mas tem situações ainda mais sérias. Numa idade em que o padrão de beleza é imposto principalmente às meninas, desde muito cedo, as que estão acima do peso, não têm a roupa da moda, o celular do último modelo e não tem o cabelo longo na chapinha, podem sofrer bastante. Fica mais fácil enfrentar isso quando um livro fala de uma princesa que aprende a ser feliz com o que tem e amar o que ela é, como explica o livro ‘Só as princesas se dão bem?’.

Thalita recebeu o Prêmio Aguzzoli por ter sido uma das pessoas que mais interagiram com a redes sociais da Bienal
Thalita recebeu o Prêmio Aguzzoli por ter sido uma das pessoas que mais interagiram com a redes sociais da Bienal

Escritora desde a infância

Thalita Rebouças já sonhava em ser escritora desde criança. Aos 10 anos ela já escrevia todos os dias e fez pequenas brochuras artesanais com seus primeiros contos. “Minha vó jogou fora. Eu disse a ela que se tiver um museu para mim, o acervo não terá esses primeiros livros”, disse ela brincando.

Quando começou a escrever seus primeiros livros de adulta, ela saiu batalhando para editar. Depois de editados e lançados, outra luta para vender. “Eu deixei um doceiro rico, porque eu comprava muitos pirulitos e levava para as bienais. Lá eu eu oferecia dizendo: um pirulito por um minuto de atenção”, contou Thalita, que tatuou um pirulito em homenagem a esse início.

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Paula e a pernambucana Lívia, do fã clube de Thalita, levaram um bolo para a escritora

Nisso também as adolescentes se identificam. Muitas dizem que por causa dessa história também decidiram ser escritoras. Thalita dá conselhos e se relaciona com as fãs como se fossem amigas pessoais, utilizando bastante as redes sociais. “Sou eu mesma no snapchat e em todas as outras redes. Eu vejo vocês, eu respondo, eu sei quem vocês são”, disse Thalita.

Thalita animou bastante aos fãs de todas as idades falando dos novos projetos que estão em curso. Uma das fãs disse que queria muito ver a personagem Malu, da coleção Fala Sério, adaptada para um filme. “Vou te dar boas notícias. Já vendi seis livros para o cinema, entre eles ‘Fala sério, mãe’. Os primeiros filmes devem sair em 2016 e 2017”, respondeu a escritora animada.

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A vloqueira Maria Clara usando o snapchat da Bienal

A escritora sabe falar com uma franqueza bem humorada para esse público infanto-juvenil. Uma das fãs perguntou sobre as inspirações para os livros, e Thalita rebateu perguntando: “e você gostou do livro?”. A fã respondeu com a clássica interjeição adolescente: hã hã. “Vou dizer uma coisa para vocês, toda vez que eu estiver perto e fizer uma pergunta, nunca respondam hã hã. Está proibido. Tem que responder: amei, melhor da minha vida, daí pra cima, combinado?”, disse Thalita para a platéia, que respondeu concordando.

Juliana
Juliana entregou uma cesta de cupcakes personalizados com as capas dos livros de Thalita

Depois de um bate-papo assim, não tinha outro final mais plausível. O público pousou para as fotos destinadas às redes sociais e ainda teve um vídeo com a turma toda gritando “Ita, ita, ita, nós amamos a Thalita!”. Fãs adolescentes são assim, o amor à flor da pele. E não terminou. A fila para autógrafos foi grande e sem pressa. Os fãs foram atendidos um a um com atenção, selfies e muito sorrisos.

Lenilda Luna – jornalista
Renner Boldrino – fotógrafo

Logoterapia é tema de palestra

A linha concentra-se no sentido da existência humana, bem como na busca da pessoa por este sentido

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Para Thiago, a tendência atual é pesquisar para validar as técnicas e as práticas da logoterapia

A ideia do livro Sentido da vida e valores no contexto da educação – uma proposta de intervenção à luz do pensamento de Viktor Frankl é transmitir e promover valores humanos, conduzir à descoberta do sentido da vida e prevenir o vazio existente em ambiente escolar. A obra é do doutor em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e presidente da Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existente, professor e pesquisador Thiago Avellar de Aquino. A palestra, tema do livro, foi proferida na tarde do último dia da 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, no Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso.

O livro apresenta uma proposta direcionada a professores, pedagogos, psicólogos e pessoas que lidam com adolescentes e jovens em contextos educacionais. A logoterapia surgiu com o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, começou a ser difundida na década de 50 e tem fundamentos antropológicos que podem ser ampliados e contextualizados. No entanto, inicialmente não penetrou na academia.

A Logoterapia e Análise Existencial é um sistema teórico e prático que expõe as experiências de Frankl nas prisões nazistas e lança as bases de sua teoria. É uma linha existencial-humanística que busca, a partir de sua antropologia, ser abarcativa em sua visão de homem em todas as suas dimensões.

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A proposta é direcionada a pessoas que lidam com adolescentes e jovens em contextos educacionais

O termo logos é uma palavra grega e significa sentido. A logoterapia concentra-se no sentido da existência humana, bem como na busca da pessoa por este sentido.

No Brasil, Frakl esteve três vezes. Ele tem o pensamento enraizado no existencialismo e se relacionava com Abraham Maslow, o pai do Humanismo. A linha entende que o sentido de hoje pode se tornar o valor de amanhã.

Para Thiago, o desafio é como transpor uma linguagem filosófica para um homem comum. “A tendência atual é pesquisar para validar as técnicas e as práticas da logoterapia. Os fundamentos já foram constituídos por Frankl”, afirmou Thiago.

Fabiana Barros – jornalista
Renner Boldrino – fotógrafo

Patrimônios vivos de Alagoas se apresentam no Espaço Gogo da Ema

Jaçanã, Jorge Calheiros, Zezé do Coco e João de Lima levaram coco e repente para a Bienal

Jorge Calheiros cantou os Sonhos de Sertanejo
Jorge Calheiros cantou os Sonhos de Sertanejo

No último dia da 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, quatro patrimônios vivos da cultura alagoana se revezaram no Espaço Cultural Gogó da Ema. No local teve repente de viola, embolada de coco e Literatura de cordel, cantados por nomes como mestre Jaçanã, Jorge Calheiros, Zezé do Coco e João de Lima.

Natural do sítio Brejinho, no município de Panelas-PE, Jaçanã abriu as apresentações e contou que a música já faz parte de sua vida desde os 7 anos, quando tocava pandeiro com seus irmãos, nos forrós, festas de aniversário, ou casamentos, em sítios da região em que nasceu. “Depois, com 12 anos, eu fui deixando o forró e entrando para a embolada nas feiras. Quando eu comecei a cantar as emboladas, inspirado por Zé Vieira, de Cupira-PE. Meu pai vendia caldo de cana na feira e lá os cantadores faziam aquelas emboladas na feira e eu saia do estabelecimento e ia ver a rodada, prestava atenção de como era a coisa. Eu já tinha uma prática boa no bandeiro e no repente, mas no início, com as rimas foi difícil”, recordou-se o mestre.

O cantor e compositor de emboladas chegou a Maceió em 1986. Ele resolveu se fixar no Estado depois que conheceu uma moça de Arapiraca. “Eu viajava por esse mundo todo, mas sempre pensando naqui, de voltar para Alagoas, aí foi quando eu fui contratado para tocar na campanha do Suruagi e Guilherme Palmeira, que apareceu uma menina. Lá, eu não tinha casa, dormia no hotel e quando não tinha dinheiro, ficava acordado. Aí a menina se interessou por mim e eu me interessei por ela e disse: vamos simbora! Agora você topa dormir no mato comigo? E ela disse, eu topo”, descreveu Jaçanã, que faz três anos que recebeu o certificado de Patrimônio Vivo de Alagoas.

Aprendiz de Jorge Calheiros, Jamile, cantou o coco depois da apresentação dos mestres
Aprendiz de Jorge Calheiros, Jamile, cantou o coco depois da apresentação dos mestres

Admiração pelo Sertão

Jaçanã foi seguido por Jorge Calheiros, patrimônio de Alagoas desde 2011. Nascido em Pilar, ele vem fazendo Literatura de cordel desde os 22 anos. No Centro de Convenções Ruth Cardoso, Jorge cantou os Sonhos de Sertanejo, cordel que expressa sua admiração por quem vive no Sertão. “O sertanejo é diferente do matuto. Ele tem chapéu de couro, casaco de couro, calça e bota de couro, espora, cavalo, laço. Então esse homem é difícil de chegar na praia, mas o matuto vem porque ele vem com chapéu, cigarro de palha, calça com tampa remendada, uma percata de couro no pé e vem vender fumo, batata, mas o sertanejo não vem vender isso. Ele fica lá no mato, como cantou Luís Gonzaga, que só deixa o Cariri no último pau-de-arara”, justificou o cordelista.

Mestre Jaçanã aprendeu a embolada nas fugas do estabelecimento do pai, na feira
Mestre Jaçanã aprendeu a embolada nas fugas do estabelecimento do pai, na feira

Pisando igual

Alagoana de Cajueiro, Zeza participa do coco há 45 anos, mas a tradição de sua família com essa expressão cultural já tem ao menos quatro gerações. “A minha família tem a tradição de cantar coco, minha mãe era mestre. A casa do meu avô era a Fazenda Alto Redondo, lá no reduto do coco. Quando casava um, fazíamos festa, porque meus primos tinham conjunto de pífano, meus tios tinham um conjunto de sanfoneiros, eu tinha cinco anos e já tocava tambor e minha mãe rezava novena e depois tinha o esquenta moleque, que era o forró de zabumba e banda de pífano. Depois começava o coco, depois vinha o forró e ficava misturando assim a noite toda, até amanhecer o dia”, lembrou a cantora.

Zeza do coco apresenta tradição de quetro gerações
Zeza do coco apresenta tradição de quatro gerações

Zeza também lembrou que em parte dessas festas havia o coco profano, que tem como característica falar mal de alguém que está na roda. “Os versos do coco serviam para acabar namoro, mas existiam aqueles versos que eram para chatear também. O povo entrava no pagode e o outro, que estava tocando, quando não gostava da presença daquele, aí cantava isso e quando o cara que tava no meio entendia o que era, a briga começava”, detalhou a mestra.

A cantora de roda passou 35 anos tocando com sua sogra, Mestra Ilda, no Pagode Comigo Ninguém pode. O grupo durou até a morte dela. Atualmente, quando Zeza é convidada, ela toca com amigos, filhos e netos, atuando também como mestre de Guerreiro, Cordel e no Pastoril.

Jhonathan Pino – jornalista

Renner Boldrino – fotógrafo

Novas publicações da Edufal são lançadas na Bienal

Editora promove lançamento de doze obras de autores locais

Pesquisadoras lançam livro sobre Gênero e Diversidade nas Escolas
Pesquisadoras lançam livro sobre Gênero e Diversidade nas Escolas

A penúltima noite da 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas contou com o lançamento de doze obras da Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal). No sábado, 28, vieram a público novas produções acadêmicas de pesquisadores e intelectuais alagoanos. Eles estão entre os cem livros lançados durante o evento.

Uma das mais esperadas, a obra Nos labirintos da imprensa, de Dirceu Lindoso, traz uma das muitas facetas do escritor: a de jornalista. Exilado político do Estado de Alagoas, durante a Ditadura Militar, Lindoso sempre esteve comprometido com debates políticos, sociais e econômicos do Brasil e do mundo. Na obra, ele contextualiza um dos períodos mais difíceis da História brasileira, tendo como perspectiva o território alagoano.

Para ele, o livro surge em momento especial. “A obra traz reflexões sobre a formação de Maceió e combina com a celebração do bicentenário da cidade”, destacou.

Para a diretora da Edufal, Stela Lameiras, a Bienal chega ao fim com muitos motivos para celebrar. “Eu chego ao nono dia de evento muito feliz. Vejo o sorriso dos autores, a realização de um projeto. Isso é muito gratificante, após 4 anos à frente da editora, ver que abrimos caminhos para todas as ciências”, ressaltou.

Também foram lançadas as obras Os crimes e a História do Brasil: abordagens possíveis, de Gian Carlo de Melo; Uma cultura anfíbia na transversalidade de saberes: Alagoas e Rússia, organizada por Maria de Lourdes Lima; Entre Lobos – Femicídio e violência de gênero em Alagoas, de Cecília Nonata, Eduardo Lucena e Denisson Santos; Sobas e Homens do Rei – relações de poder e escravidão em Angola (séculos 17 e 18), de Flávia Carvalho.

Penúltima noite de Bienal conta com doze lançamentos da Edufal
Penúltima noite de Bienal conta com doze lançamentos da Edufal

Além desses títulos, a Edufal lançou Na luta pela terra: Expressões e Escrito – o jornal dos Trabalhadores Rurais sem Terra (1981-2001), de Antônio Alves Bezerra; Conflitos, revoltas e insurreições na América Portuguesa 3, organizado por Antônio Caetano; Recusa do passado, disputa no presente – a reconstrução do trabalhismo no contexto da redemocratização brasileira (décadas de 1970 a 1980), de Michelle Macedo.

A penúltima noite de autógrafos também contou com o lançamento de O Renascimento da República, sob a organização de Flávia Benevenuto; Água Branca – História e Memória, de Edvaldo Feitosa; Gênereo e diversidade na escola – descortinando opressões, organizado por Elvira Barretto e Maria Aparecida Oliveira; e Planejamento e Política Educacional no Brasil: diferentes contextos e perspectivas, organizado por Isnalda dos Santos.

Myllena Diniz – jornalista

Aline Lima – fotógrafa

Poesia em todas as formas: a arte de Pedro Gabriel e Clarice Freire

Autores de “Eu me chamo Antônio” e “Pó de Lua” contam a experiência de transformar palavras em arte

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Clarice Freire e Pedro Gabriel compartilharam experiências com o público

Ele transformou guardanapo em obra de arte. Ela desenhou a poesia em folhas de moleskine. Os dois possuem trajetórias semelhantes, mas uma verdade única em seus trabalhos. Eu me chamo Antônio, foi a forma de Pedro Gabriel esconder sua timidez e levar para o mundo versos simples, reflexivos e descontraídos. Pó de Lua foi o jeito que Clarice Freire encontrou de iluminar em palavras aqueles que cruzaram seu caminho.

Em passagem pela 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, os dois autores mostraram como seus versos despretensiosos, suas divagações e suas poesias ilustradas ganharam o mundo. Uma legião de seguidores os acompanha nas redes sociais e não é difícil entender o porquê: saudade, amor, medo e angústia são escritos e desenhados de formas variadas, com infinita possibilidade de olhares e interpretações. Fósforo, telhado, flor e tomada também se transformam em literatura e tocam pessoas dos quatro cantos do Brasil.

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Pedro Gabriel

Antônio e os guardanapos quebraram a timidez de Pedro Gabriel e o levaram a dialogar com outras pessoas suas próprias inquietações. Tudo começou quando foi tomar um chopp perto de casa, após um dia de trabalho.

“Cada guardanapo é o espelho da minha alma. O silêncio do guardanapo é a minha voz. Eu sempre gostei de escrever e desenhar, mas, dessa forma, apenas há três anos, por acaso. Eu esqueci o caderno de anotações que sempre andava comigo e, na falta dele, me deparei com a pilha de guardanapos do bar. A partir daí, gostei da ideia de transformar essa espécie de rascunho em minha obra final”, revelou o autor.

Clarice Freire
Clarice Freire

Com Clarice Freire não foi diferente. Filha de escritor e de ilustradora, tinha receio de tornar públicos seus traços despretensiosos e seus pensamentos rimados. Na agência publicitária onde trabalhava, sua poesia saía do moleskine para o lixeiro, como uma fuga da própria consciência ao seu potencial.

“Sempre escrevi e desenhei para acalmar meus pensamentos. O trabalho com Publicidade faz a gente espremer laranja para sair criatividade, sempre com uma linguagem comercial. Isso me dava uma angústia e eu sentia necessidade de desafogar a mente. A poesia desenhada era a ferramenta para isso”, destacou Clarice, que contou ter sido “empurrada” pelos amigos a publicar suas obras no blog, quando descobriram que todo o trabalho ia para o lixo ao final do expediente.

Das redes sociais para os livros

Ambos têm formação publicitária, mas deixaram os escritórios para viverem dos próprios sonhos. No primeiro momento, encontraram na plataforma digital uma forma de armazenar obras de arte e projetá-las para os mais variados públicos.

Eu me chamo Antônio transforma guardanapos em obra de arte
Eu me chamo Antônio transforma guardanapos em obra de arte

Devido à perenidade dos guardanapos, Pedro Gabriel sabia que era preciso retirá-los da gaveta e torná-los mais duráveis. A alternativa encontrada foi fotografar as poesias ilustradas e disponibilizá-las no Tumblr, em seguida no Facebook e Instagram. Logo, usuários da rede começaram a compartilhar seus versos e despertar o interesse do mercado editorial para aquele novo jeito de fazer Literatura.

Em 2014, o artista recebeu o convite que tornaria seu trabalho registrado para sempre: publicar um livro. “As redes sociais nos deram a base de potenciais leitores e o alcance que a gente não teria se não fosse a internet. Mas, todo nosso trabalho é analógico, é feito à mão. A internet é só um meio de projeção, não de criação. A gente consegue se comunicar com o leitor nas duas plataformas. É muito bom ver que nosso trabalho funciona muito bem nas redes sociais e, tão bem quanto, fora delas”, refletiu.

Pó de Lua, o moleskine que virou livro
Pó de Lua, o moleskine que virou livro

Sobre isso, Clarice concordou com o amigo e completou: “no mercado brasileiro não existia nada parecido. Foi incrível tirar algo do intangível, que era a internet,e transformar em um trabalho impresso, para as pessoas terem em mãos. Para mim, é uma experiência completamente diferente. Muitas poesias foram feitas só para o livro e outras eu redesenhei, porque sabia que os leitores queriam ter em casa”, destacou.

Inspirações e referências

“Parece clichê, mas tudo me inspira!”, exclamou Clarice, quando questionada sobre seu processo de criação. Tanto no blog como no livro, os dois intitulados Pó de Lua, a autora transforma em poesia o improvável.  “Uma vez fui desafiada por um amigo a fazer uma poesia sobre a ‘tomada’ e surgiu. Eu não estou falando sobre uma tomada, mas me apropriei da palavra ‘e foi logo tomada por um desejo de retomada’. As palavras não são intocáveis, imaculadas e sagradas… Eu posso tocar, desconstruir e ressignificar. É dar um significado a algo que parece insignificante e torná-lo algo maior, como eu que também sou insignificante e preciso dar um significado à vida “, declarou.

E dar sentido ao que parece “insignificante” é o que Pedro Gabriel também faz com maestria. Fã de Mário Quintana, Leminski e Manoel de Barros, ele é um apaixonado por versos curtos e busca, na simplicidade, o que há de mais poético. “A simplicidade se aproxima da verdade. Perdi o medo de escrever porque vi que um traço simples pode tocar uma pessoa. É uma troca de sensibilidade do leitor, do autor e do momento”, descreveu.

Logo que seu trabalho repercutiu nacionalmente, Pedro Gabriel – ou simplesmente Antônio -, demorou a se aceitar como poeta, mas sabia que a poesia estava em cada espaço de sua obra. Receoso de se considerar poeta, dizia ser um “desenhador de palavras”.

“No primeiro momento, tive receio. Mas os leitores me chamam de poeta e a voz deles é o que interessa pra mim. Eu sei que faço poesia, não do jeito tradicional, mas é poesia. Acredito que a poesia seja uma espécie de árvore e cada galho pode ser uma arte, um poema, um desenho, uma fotografia, um rabisco, um guardanapo… Por que não? Todos na árvore da poesia”, refletiu.

Ele também ressaltou que não criou a “poesia de guardanapo”, mas desenvolveu um jeito novo de expressão. “Não é uma criação minha, outros autores já faziam isso. Eu também não criei a caneta preta, nem o filtro das fotos. A minha inovação foi unir tudo e colocar a minha vida ali. Cada um pode ter a sua história contada de diferentes formas”, destacou.

Contar sua história de diferentes formas. Clarice optou por contar sua história como a lua, refletindo luz. “Um dia, um professor me contou que mesmo sendo só areia, a lua deixava refletir a luz de outro – o Sol. Por isso, as noites não eram escuras. Eu queria clarear as noites das pessoas. Foi daí que surgiu o Pó de Lua“, lembrou, durante o bate-papo.

Trabalho

Clarice e Pedro divulgaram nas redes sociais ilustrações referentes à Bienal
Clarice e Pedro divulgaram nas redes sociais ilustrações referentes à Bienal

Eles conseguem viver do próprio sonho, mas engana-se quem pensa que é só inspiração. Por trás de tanta sensibilidade e criatividade, também há muito trabalho. “Sempre há inspiração e transpiração. Precisa que a gente tenha o trabalho de garimpeiro e carpinteiro, de estar ali fazendo traço por traço, de dedicar horas do teu dia naquela arte. E ver a evolução de tudo…”, destacou Clarice.

Pedro Gabriel também falou dos desafios e ressaltou que o esforço tem um retorno importante – a realização pessoal e profissional. “Eu não vivo diretamente da venda dos meus livros, mas eu vivo diretamente do universo que eu criei com Eu me chamo Antônio. Então, estou tendo o privilégio de viver do que eu amo”, destacou.

Versos preferidos

Em entrevista exclusiva para a Assessoria de Comunicação da Bienal, os dois autores revelaram seus versos prediletos. Curiosos?

Pedro recitou um que ainda não foi publicado e, provavelmente, estará em seu próximo livro: “plagiou a tristeza, chorou copiosamente”. Ele também lembrou do poema que o revelou para o mundo: “Primeiro, encanto. Depois, desencanto. Por fim, cada um pro seu canto”, no rosto uma expressão de encanto demonstrava o amor pela poesia daquele que não só a escreve como desenha.

O escolhido de Clarice Freire foi Fósforo. Segundo ela, esse poema foi o primeiro que lhe deu notoriedade. ” ‘Que tolo e inútil é o fósforo’. Eles disseram. ‘Queima a própria cabeça por uns segundos de fogo’. Um tolo é quem pensa assim, eu acho. Não entendem nada do jogo. Inútil é ser trancado em uma caixa. Até o tempo o fazer morrer. Sem saber o que é luz. Sem saber o que é brilhar. Sem saber o que é arder”, recitou.

Clarice e Pedro lotaram o Espaço Sesc
Clarice e Pedro lotaram o Espaço Sesc

Em frente a uma plateia repleta de jovens, Pedro Gabriel declarou que “quando você tem um poema ao lado, tem o tamanho que quiser”. Ele e Clarice já têm o tamanho do Brasil e, em Alagoas, encontraram uma fila de autógrafos grande como as diferentes possibilidades de interpretação de suas obras.

“Esse contato direto com os leitores é fundamental. Independente de ser com um guardanapo ou com um moleskine, o que valoriza seu trabalho é a conexão humana”, salientou o autor. Para Clarice, essa troca de energia é o verdadeiro objetivo de sua arte. “É a primeira vez que venho para Maceió a trabalho e não tem preço olhar nos olhos dos leitores, ver o sorriso deles e ter, de fato, um encontro com eles”, ressaltou.

Myllena Diniz – jornalista

Aline Lima – fotógrafa

Leonardo Boff alerta sobre impactos da ação humana sobre meio ambiente

“Já ultrapassamos o limite da Terra”, alertou o Teólogo da Libertação em sua palestra na Bienal

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Leonardo Boff falou sobre os impactos da ação humana sobre o meio ambiente

A palestra do filósofo, teólogo e escritor Leonardo Boff, autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, ecologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, foi uma das mais concorridas da penúltima noite da 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Quem não chegou cedo, acompanhou tudo pelo telão montado no hall de entrada no piso superior do Centro de Convenções de Maceió. O público era bastante heterogêneo. Professores e estudantes de diversas áreas, profissionais liberais e até um grupo de integrantes do Movimento de Trabalhadores do Campo, que veio de Igaci, interior alagoano, especialmente para a palestra de Boff.

A sala ficou lotada para a palestra de Leonardo Boff
A palestra de Leonardo Boff foi uma das mais concorridas da penúltima noite da Bienal

Aos 77 anos, Boff falou com firmeza, mas de forma tranquila, característica mais  marcante de sua personalidade, sobre os impactos da ação humana sobre o meio ambiente, um dos temas que vem ocupando sua energia nas últimas décadas, e lançou seu mais novo livro “Ecologia, Ciência e Espiritualidade”. Durante entrevista à Ascom da Bienal, Boff adiantou um pouco da sua palestra, elogiou posicionamentos do Papa Francisco,  analisou as recentes ações terroristas na França, falou de corrupção, de reforma política e deixou um recado para a cidade de Maceió, nestes 200 anos de historia.

Ascom – O senhor tem se dedicado bastante á temática ambiental. Esta é também sua maior preocupação nos dias atuais?

Leonardo Boff em entrevista à Ascom
Leonardo Boff em entrevista à Ascom

Boff – Nós estamos assistindo à reação da Terra que, durante os últimos três séculos foi sistematicamente agredida, com o aproveitamento de todos os seus bem e serviços, para além da capacidade de sua  reposição. E isso continuou na medida em que os seres humanos prosseguiram com o processo de acúmulo de riquezas, mas chegou o ponto em que a Terra não aguenta mais. Se o projeto da humanidade é de crescimento ilimitado e temos um planeta limitado, nós, hoje encostamos no limite da Terra. E os eventos extremos são a forma  como ela mostra esse processo caótico de desequilíbrio. Por um lado, grandes secas, por outro, grandes inundações, erupção de vulcões e isso se resume na expressão aquecimento global.A Terra é um super organismo vivo, não só tem vida sobre ela. Ela mesma é um ser vivo, que articula o químico, o físico e o ecológico de tal maneira a sempre produzir vida.

Ascom – Falta muito para chegar a um limite?

Boff – Já ultrapassamos o limite da Terra. Chegamos ao cheque especial. Se nós tomarmos o ano como referência,  ela, já em agosto, gastou todos os seus recursos. Nos vivemos na penúria. Agrava-se a fome no mundo, quebram-se safras. Portanto, é afetada, não só a parte do meio ambiente, mas a parte social, que também pertence à ecologia. Então, o crescimento da violência no mundo é a expressão desse desequilíbrio. A incapacidade de os seres humanos de mudarem de rumo. Ou mudamos de rumo ou iremos caminhar para o pior.

Ascom – O Papa Francisco tem cobrado muita responsabilidade dos governos quanto ás questões ambientais. O senhor vem acompanhando essa atuação dele?

Boff – Sim, sim. Considero  a última Encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado com a mãe terra um dos maiores documentos da historia do papado.É um verdadeiro Manual de Ecologia. Não é uma encíclica verde, porque o verde se restringiria só ao meio ambiente.É uma ecologia integral, que toma o meio ambiente, toma a ecologia mental e social – ideias, valores e sonhos que se passam na cabeça humana – e ecologia na dimensão espiritual, aqueles valores que não estão na economia de mercado, que não entram no Produto Interno Bruto (PIB), que são a solidariedade, a compreensão e o amor. Portanto, a encíclica tenta unir os dois pólos: o grito da terra e o gritos dos pobres, que, inclusive, é o título de um dos meus livros.

Ascom – Então, o senhor concorda que ele (o Papa) é um aliado de peso nesta causa?

Boff – O Papa representa, hoje, a ponta mais avançada do pensamento ecológico mundial, indo muito mais à frente que qualquer outro ecologista. Lembro que o próprio Edgar Morin, grande pensador francês, já observou que a encíclica papal, à qual já me referi, é um texto que vai modificar o pensamento ecológico, em nível mundial. O Papa diz que o cerne do problema não é a relação entre desenvolvimento e natureza, mas a relação entre o ser humano e a natureza. O ser humano se coloca fora e acima da natureza, como dono que pode fazer com ela o que quiser. Essa atitude e esse paradigma  é que produziram a crise ecológica. Então, por 35 vezes, no documento, o Papa pede  que mudemos de rumo, troquemos o estilo de vida, caso contrário,  iremos ao encontro do pior.

Ascom – O Papa conclama a uma mudança de postura em nível mundial.

Boff – É, na realidade, um grande chamado. Ele mostra o lado dramático da situação, mas sempre com o sentimento de esperança, de que o ser humano, tendo  sabedoria, meios técnicos e fundos econômicos, e, querendo, pode aproveitar tudo isso para dar uma guinada na historia. E, dessa forma, salvar a vida no planeta e a nossa civilização. Se não for assim, corremos um sério risco de que a nossa espécie seja afetada. Toda luta hoje é não ultrapassar dois graus Celsius. A maioria dos cientistas diz que, se seguirmos como estamos, cruzamos dois e cinquenta graus Celsius, logo logo vamos ter um aquecimento abrupto e as formas de vida que conhecemos não vão conseguir se adaptar e vão desaparecer. E, não sendo minimizados os efeitos,  grande parte da humanidade vai desaparecer junto.

Ascom – Consumir menos bens e serviços pode ser uma forma de contribuir para minimizar esses efeitos?

O consumo está na lógica do sistema,  ele tem que produzir mais e mais para que, cada vez mais pessoas consumam. E quanto mais produz e consome, mais precisam de elementos da natureza, água, solo, fibras. Com isso, os ecossistemas são devastados e empobrecendo a Terra. Ou mudamos essa lógica ou, efetivamente, não teremos salvação. É mais ou menos como um trem em cima os trilhos. Ele segue o rumo dos trilhos. Nós estamos em cima deste trem. Temos que pará-lo, inventar outra forma de conduzi-lo , de habitar o planeta, e pensar num consumo que não seja ilimitado como é o nosso. Que seja um consumo responsável, solidário, tendo como lema central a sobriedade compartilhada, que atende a nós, mas não só a nós, atende a toda a comunidade. Sejamos sóbrios.Precisamos ter só o suficiente e o decente para viver. Se todos seguirem isso, haverá alimento, água para toda a humanidade. Agora, se houver excesso de consumo dos países ricos, vai faltar para grande parte, e já está faltando.

Ascom – Se o senhor que tivesse que reescrever sua Teologia da Libertação, hoje, qual o espaço que o meio ambiente, o cuidado necessário, teria nessa teoria?

Boff – Olha, o essencial da Teoria da Libertação é a opção pelos pobres, contra  a pobreza, a favor da justiça social. E eu, já nos anos 80, me dei conta disso. A mesma lógica que explora o trabalhador, os países, é a mesma que explora a natureza e a Terra, de modo geral. Então, a Terra hoje é o grande pobre. Então, dentro da opção pelos pobres temos que colocar o grande pobre que está crucificado, passando necessidade. Baixá-lo da cruz , devolvê-lo à vida, ressuscitá-lo. Então, hoje temos uma Ecoteoria da Libertação. Não é que acrescentamos, é apenas um aprofundamento. E isso é uma coisa pacífica. E estou feliz pelo Papa ter lançado a Encíclica que já mencionei, que merece ser lido.

Ascom – Qual o caminho para ajustar o trem em outros trilhos?

Boff – Diante desse cenário, que é dramático, a gente pode ter duas atitudes. Um atitude é falar em tragédia anunciada e ela é possível, já que o ser humano, além da questão ecológica, criou uma máquina de morte de armas químicas, biológicas e nucleares, capaz de destruir toda a vida por 25 frentes. Uma máquina mortal. Eu prefiro  entender como uma grande crise de civilização, e valores, princípios, hábitos, que conformavam nossa sociedade. Por exemplo, se, hoje, os Estados Unidos e a Europa quisessem dar o bem estar para todo mundo, nós precisaríamos de três terras iguais a eles. Então, esse sistema não funciona. Só funciona bem para um  bilhão e setecentos milhões de pessoas. Nós somos sete bilhões.Portanto, não pode ser levado adiante.Trata-se de um sistema imposto com grande violência, culpando os países, recolonizando toda a América Latina para ela ser uma reserva daquilo que eles já não têm – minerais, água, florestas, solos férteis.

Ascom – O senhor acredita que pode haver um dia equilíbrio?

Eles mantêm a tecnologia e, nós, o substrato para manutenção da vida. Não aceitamos essa divisão internacional do trabalho. A Terra inteira tem que  crescer de uma forma homogênea e eles têm que moderar seu desenvolvimento e nos ajudar a sair da pobreza e da miséria. Não precisam mais se desenvolver têm tudo que precisam em abundância. O que podem desenvolver ainda é a prosperidade,a arte, a cultura a espiritualidade. Nós precisamos da base material, de crescimento. Há pessoas que morrem de fome, não têm casa, nem geladeira, nem fogão. Precisamos nos desenvolver para ter uma vida decente, digna, não para chegar ao nível deles, pois isso não deve ser o objetivo, mas uma vida justa. A humanidade inteira merece esse equilíbrio.

Ascom – Por falar em equilíbrio , aqui no Brasil, muita gente está se afastando da política e facilitando a apropriação de seu destino por quem quer que seja. De que forma isso pode impactar na construção de uma sociedade mais equilibrada?

Boff – Nós somos herdeiros de duas grandes sombras. Primeiro, o colonialismo e depois, a cultura escravagista. E como e um dado cultural, isso ainda está na cabeça das pessoas. Os ricos, por exemplo, consideram uma caridade pagar o salário mínimo. No fundo, não queriam pagar nada. Essa mentalidade da política brasileira, que vem dessa tradição, fez com que os que podem chegar ao Estado usem-no para benefício próprio, o que a gente chama de patrimonialismo. Então, você dá o direito de se apropriar da coisa pública e não considera roubo, mas esperteza, vantagem, privilégio. Não temos uma democracia de direitos, temos uma democracia de privilégios. Quem se beneficia do poder público, enriquece, entra no mercado por cima, toma do erário, do dinheiro público para si mesmo. Então, esse é um vício que está na raiz da política brasileira. E ai temos que fazer uma profunda reforma política. O legado, a herança do lava Jato, das condenações dos grandes ricos, sinaliza que, daqui em diante, não dá mais para  continuar ocupando o Estado para se beneficiar do poder do Estado. Isso, possivelmente,  vai impedir muito a corrupção.

Ascom –  Isso depende em que medida de quem em as rédeas do poder?

Boff – O presidente, mais que gerenciador da macroeconomia , é o gerenciador  do bem comum do povo. E a política deve ser  como Gandhi definia, um gesto amoroso para com o povo. O cuidado  com as coisas que são comuns é o sentido ético da política. Até hoje, não tivemos. Nisso tudo, há de lastimável que o partido que se propunha a realizar isso – o PT – , tenha traído essa bandeira, por ter se deixado contaminar, matando a esperança de muitos brasileiros. Nós podemos tolerar a difamação e a perseguição dos ricos, mas não podemos tolerar a decepção e a profunda irritação.

Ascom – Qual a saída?

Boff – Recomeçar com a política que vem de baixo. Não acredito em nada do que vem de cima. E de baixo ainda estão vindo experiências interessantes, de grupos e movimentos sociais que se organizam em torno da solidariedade, ao redor das cooperativas, da produção solidária da ecoecologia, uma forma de democracia participativa, não apenas representativa. Esses são os portadores da esperança e desses caminhos vem a grande renovação da política brasileira.

Ascom – O senhor sempre usa um anel preto,  a exemplo de muita gente ligada aos movimentos sociais, qual a origem desse símbolo?

Boff – O anel de Tucum surgiu dos grupos indígenas. Os caciques davam a quem apoiava à causa indígena. Depois, ele passou para todos aqueles que se empenham pela libertação dos povos. E isso virou um símbolo. Quem usa, sabemos, este é da caminhada. Por exemplo, há alguns anos atrás, eu estava na Suécia, pertinho do Polo Norte, fui ministrar uma conferência sobre ecologia e havia duas pessoas com o anel. Eu perguntei, o motivo de eles estarem usando o anel. E eles disseram que foram à Amazônia  e assumiram a causa dos índios e a defesa da floresta. E a gente vê pelo mundo inteiro, na Alemanha, França, Itália. Nós até queríamos que o Papa isso. Se um dia eu me encontrar com ele, vou colocar um anel deste no dedo dele, uma vez que ele fez a opção pelos pobres, que ele coloque o símbolo junto com o anel de Papa.

Ascom – Com certeza, ele vai colocar, já que é bastante progressista.

Boff – Vai, sim, não tenho dúvida.

Ascom –  Voltando à questão das ameaças à vida na Terra, o terrorismo também é outro tipo de violência preocupante, não acha?

Boff – Todos os terroristas dos últimos atentados em Paris eram franceses de segunda, terceira geração, franceses mulçumanos, que viviam nos guetos, em condição subumana. Então, a forma de eles mostrarem sua indignação, sua decepção com aquele mundo que os marginaliza foi participar dos atentados.Eles nem eram crentes, não eram fiéis seguidores do Islã. Foi apenas uma manifestação, uma forma de vingança da humilhação e da amargura que eles passam. Na França, vivem seis milhões de mulçumanos. E eles até hoje não foram integrados à sociedade. Vivem discriminados. O governo não tem projetos de trabalho e de educação para eles. Lógico, isso não justifica  os atentados, mas mostra o quadro social que permite que pessoas desesperadas cometam esse tipo de crime.

Ascom – Para finalizar, gostaríamos de ouvi-lo sobre seu contato com Maceió, que este ano completa 200 anos.

Com a sala lotada, muitas pessoas assistiram à palestra pelo telão
Com a sala lotada, muitas pessoas assistiram à palestra pelo telão

Boff – Faz anos que não venho a Maceió, mas sempre admirei essa cidade. Primeiro, o clima extraordinário e suas praias belíssimas, com uma brisa permanente. Depois, a profunda  gentileza do povo, a  hospitalidade, a comida  maravilhosa. Como também, a  falta de cerimônia na comunicação, a cordialidade do povo. Isso tem que ser preservado como valor que não deve se perder, apesar dos engarrafamentos, do crescimento tecnológico, enfim dos avanços da civilização. Que o homem seja mantido no centro e não a máquina. Desejo que os  valores à margem do PIB, capacidade de cooperação, o amor, a não violência, a inteireza de vida, a honestidade, dentre outros se consolidem por aqui, assim como desejo isso ao Estado brasileiro como um todo.

Graça Carvalho – jornalista

Aline Lima – fotógrafa

Trabalho conjunto nas áreas de Medicina e Psicologia resulta em livro

Os autores de Educação Médica no Brasil trabalham juntos há dez anos e acreditam que a obra é consequência dessa parceria

Comunidade acadêmica, família e amigos prestigiaram o lançamento do livro de Rosana, Sylvia e Nildo
Comunidade acadêmica, família e amigos prestigiaram o lançamento do livro de Rosana, Sylvia e Nildo

Ampliar e aprofundar temas relevantes para o trabalho docente, bem como rastrear condições históricas em que se desenvolveu o ensino médico no país é a proposta do livro Educação Médica no Brasil, dos professores Nildo Alves Batista, Rosana Quintella Brandão Vilela e Sylvia Helena Souza da Silva Batista. Sylvia proferiu a palestra Docência em saúde: tema e experiências, hoje (29), na 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, no Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso.

Durante a palestra, Sylvia destacou a importância da produção coletiva. Ela já teve livros lançados com outros autores pela Editora Senac. Educação Médica no Brasil é lançamento da Editora Cortez.

A publicação traz olhares e perspectivas que buscam dialogar com as novas diretrizes curriculares para a graduação em medicina e com as inovações curriculares e pedagógicas necessárias para atender a uma formação orientada para o Sistema Único de Saúde (SUS) fundamentadas nas demandas da sociedade, na interdisciplinaridade e na interprofissionalidade.

Os três autores, Rosana e Nildo do curso de Medicina, e Sylvia formada em psicologia, já trabalham juntos há mais de dez anos. “O livro é uma conseqüência desse trabalho e trata do tema educação médica desde a história até o estudante e o professor da área hoje”, declarou Rosana.

Para o trio, um dos desafios iniciais foi resgatar fatos e contextos marcantes da própria História da Medicina. A contextualização da obra procura registrar distintos momentos, oferecendo ao leitor uma visão holística da educação médica. O capítulo 1 do livro, que contém seis capítulos, trata das raízes da medicina. O capítulo subseqüente aborda o ensino médico no Brasil. Outro capítulo trata também do ensino médico no Brasil, mas no século 20 e sua expansão.

O movimento preventivista à criação do SUS também é tema da publicação. Outro assunto importante é como a avaliação da aprendizagem no ensino médico e as possibilidades e desafios. Os temas interessam não apenas aos profissionais, mas também aos estudantes.

Após a palestra, houve o lançamento do livro no estande da Edufal
Após a palestra, houve o lançamento do livro no estande da Edufal

Após a palestra, as autoras, já que o professor Nildo não pôde comparecer, e o público se deslocaram do auditório Massayok “B”, onde aconteceu a palestra, até o estande da Edufal para o lançamento do livro, autógrafos e uma apresentação de chorinho.

A 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas começou no último dia 20 e encerra hoje. O evento é uma realização da Ufal, por meio da Edufal e da Fundepes, da Prefeitura Municipal de Maceió e Governo do Estado de Alagoas. O evento conta ainda com o apoio da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU), Associação Nacional de Livrarias (ANL), Organização Arnon de Mello, Ifal, Pajuçara Sistema de Comunicação, Instituto Zumbi dos Palmares, Detran-AL, Hotel Ponta Verde e Maceió Shopping.

Fabiana Barros – jornalista

Renner Boldrino – fotógrafo